segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Alguém... Ninguém...

Um dia me disseram que eu não seria ninguém. Eu mandei esse alguém tomar no cu e fui tentar ser alguém.

Hoje eu sou alguém. E esse alguém que me disse que eu não seria ninguém, na verdade, não era ninguém.

E se hoje eu sou alguém, é porque tenho alguém que não deixa eu me sentir um ninguém.

Desde o dia em que resolvi ser alguém, ninguém nunca mais ousou dizer que eu não seria ninguém. Ninguém. E se alguém ousar, é porque é um ninguém que não tem alguém que o faça largar mão da condição de ninguém.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Canção da Glória


Minha terra não tem Palmeiras,
tem apenas o Bangu.
É, de fato, bem simpático,
mas não tão grandioso como tu.

Em teu peito tens mais estrelas.
Em teu campo tens mais flores.
Glorioso que irradia vida.
Pelo mundo cultivas amores.

Em cismar, sábado à tarde,
Moça Bonita é meu lugar
Minha terra não tem Palmeiras,
mas o Bangu me faz alegrar.

O Bangu não tem primores
ou glorias que te vejo exaltar.
Em cismar – sábado à tarde –
Moça Bonita é meu lugar
Minha terra não tem Palmeiras,
mas o Bangu faz-me alegrar.

Não permita Deus que eu morra
sem que eu te veja levantar
o caneco da Libertadores,
que nunca te vi conquistar.
Sem que eu veja tua torcida
radiante, a te glorificar.



sexta-feira, 3 de junho de 2011

A minha "Felicidade Clandestina"

Fiz esse continho como trabalhinho da faculdade, ainda nos primeiros períodos. Trata-se de uma recriação aleatória da "Felicidade Cladestina" de Clarice Lispector (suspiro). Encontrei e resolvi postar aqui.

Mais. Ela queria sempre mais. Não que lhe coubesse a alcunha da ganância ou soberba, sua imperatividade agia sobre si. E quanto mais altos eram seus vôos, mais culminantes eram seus anseios. O céu era o limite. O céu. O céu em sua infinidade azul... Infinito... Finito tornou-se tão logo Ela se deparou com tal celestialidade, duplicada em belos olhos, e protegida pela luminosidade das mais perfeitas madeixas que vira em sua vida. E assim seria: tudo de mais que Ela almejava estava ali, à sua frente, irretocável.
 
Seria apenas mais uma conquista. Sim, seria. Apenas seria. Pela primeira vez os tempos verbais iam de encontro a seus desejos, todos eles, e não haveria no mundo quem os conjugasse de outra forma. E assim foi: a angústia do adeus que nunca houve; nem ao menos um simples olá acontecera.
 
Mas a sorte, para sua esperança, lhe sorriria outra vez. Sorriria? Malditos tempos verbais! Novamente se deparara com tamanha perfeição. Passou à sua frente, olhou-A de soslaio e continuou a andar. Era o fim. Em poucos segundos batera às portas do éden e terminara por agonizar no inferno das dúvidas. Era o fim. Não, não era ainda o fim. Mais tarde, Ela descobriria que teria a chance de admirar tão vasta magnitude por todos os dias, em uma de suas atividades rotineiras — jamais as chamaria de rotineiras novamente.
 
Inexplicavelmente, toda sua imperatividade permanecia inoperante frente àquela riqueza que enchera seus olhos. Nenhuma palavra. Nem mesmo de seu olhar saía qualquer enunciação que pudesse sinalizar sua idolatria. Em dados momentos paralisava-se. Percebia-se um tanto boquiaberta. Olhava para os lados. Não, ninguém percebeu.
 
Ela não conseguia descobrir o que a tornara assim, contudo continuava a viver. E vivia. Boquiaberta. Encantada. Intrigada, até. Passava os dias a contar as horas para vivenciar aquele momento. Aquela angústia a agradava um pouco. Aquele olhar oblíquo lançado sobre si. Oblíquo. Perfeito.  Aquele frio na barriga, aquela felicidade clandestina, única, o prazer de se sentir ignorada. Nem ao menos sabia se realmente era ignorada, mas assim sentia-se. E assim era feliz. Encontrara sua felicidade na mais completa dúvida, na satisfação de permanecer entre o dizer e o não dizer. E nunca dissera nada. Descobrira que sua felicidade estava ali, dia-após-dia, olhando-A, obliquamente. E nunca atreveu-se a proferir qualquer palavra. Sabia que a satisfação de uma possível conquista a distanciaria de sua feliz angústia. De sua felicidade. Clandestina.


quarta-feira, 25 de maio de 2011

A minha "Miss Dollar"

Fiz esse continho como trabalhinho da faculdade, ainda nos primeiros períodos. Trata-se de uma recriação aleatória da "Miss Dollar" de Machado. Encontrei e resolvi postar aqui.



A forma, a desenvoltura como uma estória é contada, ou até mesmo a própria estória, podem sofrer radicais alterações. Para tanto levar-se-ão em conta dois fatores: quem conta e a receptividade de quem lê. E, sem mais delongas, essa é a sensação que procurarei suscitar em meu caro leitor. Falarei agora de Miss Dollar: velha acabada, sobras de pele, dentadura frouxa, dentre outras qualidades. Não direi exatamente de quem se trata, caberá ao próprio leitor desenhar, em seus traços mentais, a sua personagem. 
Miss Dollar teve uma infância como qualquer outra. Chorou, sorriu, dormiu, acordou, brincou, cantou e teve cataporas. Não foi das mais dedicadas filhas, conquanto fosse a mais adulada entre as cinco de Madame Deneuve. Personalidade forte, Miss Dollar resolveu, ainda na adolescência, abandonar a família para seguir seus ideais. Saiu-se de casa levando sobre as costas algumas mudas de roupa, umas poucas jóias que ganhara e um velho espelho rachado, no qual olhava-se, quando ainda menina, com a pompa de uma duquesa, maquiada com os batons de sua mãe e adornada com os laços de suas bonecas. 
Para alcançar algum sucesso em sua escalada profissional, Miss Dollar batalhou arduamente. Houve épocas em que chegara a trabalhar em três turnos, com pequenas pausas de vinte minutos para um forçado lanche na pensão do seu Advaldo. Não sabia — como ainda hoje não sabe — se a decisão de abnegar a todo luxo e garbo que tinha na mansão dos Deneuve fora acertada, entretanto continuava sua vida. Com muito esforço e algumas vicissitudes, Miss Dollar chegou ao topo: foi, durante muitos anos, a profissional mais requisitada de sua área. 
Sim, agora era feliz! Com o patrimônio financeiro resultante de sua lida, Miss Dollar percorreu o mundo, conheceu novas culturas e gozou de todas as regalias que sua riqueza podia lhe oferecer. A pensão de seu Advaldo agora fazia parte de seu passado, assim como sua família. Além de ostentar um luxuoso flat em Botafogo, Miss Dollar almoçava em restaurantes como Olivier Cozan e Caréme. Contudo, entre toda essa felicidade havia um revés: sua solicitude profissional lhe impedira de construir uma vida a dois. Faltava-lhe um parceiro, um amigo, um filho... Percebeu então que tudo que fizera, fizera em vão. Percebera também que, em toda sua jornada, deixara para trás seu idealismo adolescente que a levara até ali. 
Hoje, Miss Dollar é aquela que eu já vos descrevi: velha acabada, sobras de pele, dentadura frouxa, dentre outras qualidades. Seu velho espelhinho não reflete mais aquela jovem repleta de sonhos e esperanças. Sua velhice lhe impede de exercer as funções que desempenhava outrora com tanta galhardia. Ao observar tantas outras mulheres ocupando seu posto, Miss Dollar pensa em alertá-las sobre a vulnerabilidade que essa opção lha trouxera, mas conclui que este é um ciclo interminável, e que idealismo e felicidade são meras utopias.
 


sábado, 12 de março de 2011

Cu

Cu
porteira redonda
cercada de fios de cabelo
por onde passa o sinuelo
das tropas que vem do bucho
pra conservar as tuas pregas
não precisa muito luxo
é só limpar com macegas
no velho estilo gaúcho

Te saúdo cu de índio xucro
sovado de tanta bosta
por que coragem tu mostras
quando a merda vem a trote
e se ela é meio dura
devagar tu não te apuras
pra evitar que te maltrate

Cu
velho cu miserável
sempre de boca pra baixo
pois sendo cu de índio macho
desses que caga em tarugo
e nunca deixa refugo
se alguma merda carregas
é só limpar com macegas
ou mesmo usando um sabugo

Cu
mártir do corpo
malquisto e desprestigiado
no mais das vezes cagado
e enferrujado na rosca
teu destino é coisa osca
pois enquanto a vida passa
a boca bebe cachaça
e tu sempre a juntar moscas.

Tenho dito.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quando o inesperado é fundamental

Sabe a sensação que você sente ao encontrar aquele objeto querido, que não via há anos e nem se lembrava mais de sua existência? Sabe quando você, andando pela rua, encontra aquele amigo querido de infância, com quem não falava desde a formatura do colegial? A sensação que o inesperado causa é indescritível.

Estava ali apenas para estar e, quando menos esperava, encontrava uma oportunidade de ser. O mais fortuito dos sorrisos. A sensação de ter encontrado o que nem procurava, mas que me era estranhamente necessário. Assustadoramente necessário. Como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.

Não sou mais um tripé nem sou mais estável, e isso me encanta. Posso andar e cair à vontade, e o fato de não ter a menor ideia do que me pode acontecer me passa uma segurança nova, uma sensação de navegar pelo desconhecido como se por ali sempre tivesse passado em meus sonhos e pensamentos utópicos.

O que me faz pensar assim? Não sei, mas nada mais é impensável. É estranho. Não ter certeza, pela primeira vez, me causa tanta euforia quanto o inesperado me é fundamental nesse momento.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Dor

Rifa-se um coração.
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
(Clarice Lispector)

Certas mágoas ficam, pensava. Estava magoada, ferida, machucada, ainda apaixonada. Utilizara de todos os homens a todos os conhaques, mas permanecia ferida, como um machucado que não quer cicatrizar.

Ironicamente, quando estava prestes a secar, ela metia o dedo na ferida, só para continuar a doer. Não tinha de ser dor permanente, mas o era. Então é dor que quero levar pro resto da vida, meditava.

Reunia fotos e brindes e músicas e lembranças, e lágrimas. Como pôde não ter sido? Como pude somente ter estado? Durante as lágrimas, sempre os mesmos pensamentos: como? Por quê? É terrível não conseguir deixar de pensar no que se quer que seja impensável, mas que, infelizmente, não o é.

Abandonou aquele cantinho. Todos aqueles cantinhos. Era hora de mudar, e mudar significava abandonar toda a segurança de sua vida e viver o desconhecido. Mudou. E levou a dor consigo.

- É dor que quero levar pro resto da vida.